UFBA grava videoaulas da disciplina “Produção de Material Didático-Pedagógico para a Educação Escolar Indígena”

Foto de Gleydson Públio (SEAD/UFBA)

Em um movimento que reforça o compromisso com a educação superior pública e intercultural, a Universidade Federal da Bahia finalizou a gravação, no estúdio da Superintendência de Educação à Distância da UFBA, de duas videoaulas da disciplina “Produção de Material Didático-Pedagógico para a Educação Escolar Indígena”, componente curricular da Licenciatura Intercultural Indígena. Ministradas pelo antropólogo Felipe Bruno Martins Fernandes, as aulas marcam a transição para a segunda metade do curso, que forma professores indígenas em regime de alternância.

O docente responsável não é um novato na causa. Ex-coordenador do próprio curso, ele agora assume a disciplina que fecha o ciclo básico da licenciatura, no quarto semestre. “É o momento de síntese”, explica Fernandes. “Os estudantes trazem toda a bagagem das ciências, das licenciaturas e, principalmente, da vida em suas aldeias. Nossa tarefa é ajudá-los a transformar isso em ferramentas concretas de ensino”.

Diálogo com o movimento indígena nacional

A produção deste material didático audiovisual está em sintonia com as diretrizes estabelecidas pelo VIII Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (FNEEI), realizado durante a COP 30, cujo tema central foi “Por uma Pedagogia dos Territórios e dos Biomas”. O Fórum reforçou a urgência da produção de materiais próprios, contextualizados e com autoria indígena, reafirmando que a formação de professores é um eixo estratégico para uma educação escolar diferenciada. A iniciativa da UFBA, ao produzir videoaulas que articulam teoria pedagógica, instrumentos didáticos e saberes territoriais, responde diretamente a essa convocação do movimento indígena organizado.

O Conteúdo: Do Pós-Construtivismo ao “Veritek”

As aulas não são teóricas no sentido abstrato. A primeira desmonta, peça por peça, os fundamentos da teoria pós-construtivista para a alfabetização, com base em pesquisadoras como Esther Grossi e Gérard Vérgnaud. Mas há um núcleo político crucial: um box explicativo sobre o conceito de “Contracolonialidade”, do pensador quilombola Nêgo Bispo. A locução desse trecho não veio de um narrador profissional, mas da voz serena de Potira Pataxó, estudante da licenciatura, da Aldeia Pequi, Território Comexatibá. “Era fundamental que a explicação sobre um conceito que fala de resistência epistêmica fosse vocalizada por quem vive essa resistência”, afirma o professor.

A segunda aula é um manual prático. Ensina, passo a passo, como criar e utilizar o “Veritek”, um jogo didático usado pelo GEEMPA. A cena que surpreenderá a todos foi a participação espontânea do Prof. Haenz Gutierrez, Coordenador de Tecnologias Educacionais da SEAD/UFBA, que se pôs a jogar e a aprender ali mesmo, durante a gravação. “Foi a melhor validação possível”, comenta Fernandes. “Quando o especialista em tecnologia educacional se engaja e vê valor na ferramenta, significa que estamos no caminho certo para a integração entre saber tradicional e inovação pedagógica”.

Por Que Isso Importa Para Fora dos Muros da Universidade?

O curso é parte do PARFOR Equidade e atende exclusivamente professores indígenas em formação, das regiões Norte, Sul e Extremo Sul da Bahia. Sua modalidade é presencial, mas em regime de alternância: períodos concentrados na UFBA intercalados com longos períodos nas comunidades. Nesse contexto, as videoaulas são mais do que um recurso; são um guia pedagógico. “Os alunos nos dizem que é o material que sustenta o estudo durante o Tempo Comunidade”, revela Fernandes. “É a ponte que mantém viva a conexão com a universidade.”

A equipe por trás das câmeras e dos microfones recebeu agradecimento especial: Gleydson Públio, responsável pela gravação, e Anderson, estagiário de música que cuidou do áudio. “Foi lindo ver a química entre todos. Não era apenas uma gravação técnica, era uma construção coletiva”, descreve o professor.

O Resultado

As aulas, que estarão disponíveis no ambiente virtual de aprendizagem da UFBA, representam mais que conteúdo acadêmico. Elas são a materialização de um princípio: a produção do conhecimento científico não só pode, como deve ser irrigada pela vivência cultural. Aqui, a teoria da alfabetização dialoga com a contracolonialidade, e a tecnologia educacional se curva para aprender com um jogo de madeira.

A mensagem final, ecoada na voz de Potira Pataxó e no gesto do Prof. Haenz, é clara: a educação do futuro não será imposta de cima para baixo. Será costurada no diálogo — entre a universidade e a aldeia, entre a pesquisa de ponta e o saber ancestral, entre o clique de uma câmera e o riso de quem aprende jogando.

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